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quinta-feira, 25 de abril de 2024

Desestigmatizar o feminino: uma necessidade social urgente

Nos meandros da sociedade contemporânea, persiste um estigma que, lamentavelmente, muitas vezes é aceito tacitamente: a estigmatização do feminino. Este fenômeno insidioso, enraizado em preconceitos e ideias ultrapassadas, encontra expressão em diversas esferas da vida, uma das quais é a estigmatização do homem afeminado.

Os estereótipos de gênero e a marginalização do feminino na sociedade moderna

A ideia de que um homem possa expressar traços considerados "femininos" e, consequentemente, ser alvo de discriminação e marginalização é um reflexo direto do estigma associado ao feminino. Desde tenra idade, somos ensinados a valorizar certas características e comportamentos associados ao que é considerado "masculino", enquanto relegamos tudo o que é percebido como "feminino" a um papel secundário, ou pior, a algo digno de vergonha e repúdio.

Problematizando a masculinidade heterocentrada: impactos além dos indivíduos afeminados

A masculinidade heterocentrada, uma construção social que impõe uma visão restrita e prejudicial do que significa ser homem, é uma das principais impulsionadoras desse estigma. Sob essa ideologia, expressões de sensibilidade, empatia e outros traços associados ao feminino são vistas como sinais de fraqueza ou inferioridade. Assim, os homens que se desviam desse padrão são frequentemente alvo de zombaria, violência verbal e até mesmo física.

É essencial reconhecer que essa estigmatização não prejudica apenas os homens afeminados, mas também perpetua a desigualdade de gênero e prejudica toda a sociedade. Ao associar negativamente o feminino, limitamos o espectro de comportamentos e emoções considerados socialmente aceitáveis para todos, independentemente do gênero. Isso contribui para a manutenção de estruturas de poder desiguais e para a marginalização das mulheres e de qualquer pessoa que não se encaixe nas normas estritas de gênero.

Valorizando o feminino: um passo crucial para uma sociedade mais justa e inclusiva

Desestigmatizar o feminino não significa apenas aceitar e celebrar a diversidade de expressões de gênero, mas também reconhecer o valor intrínseco de características consideradas tradicionalmente femininas, como empatia, sensibilidade e cooperação. Esses traços são essenciais para a construção de uma sociedade mais justa, compassiva e equitativa.

Portanto, é necessário que comecemos a desafiar ativamente o estigma associado ao feminino em todas as suas formas. Isso requer uma mudança cultural profunda, que começa com a desconstrução das normas de gênero restritivas e a promoção da igualdade em todas as áreas da vida. Devemos educar e incentivar as gerações futuras a valorizar a diversidade de experiências e identidades de gênero e a rejeitar qualquer forma de discriminação baseada em estereótipos ultrapassados.

Construindo um mundo de igualdade e aceitação: celebrando a diversidade de gênero e promovendo uma sociedade inclusiva

Diante disso, vale destacar que desestigmatizar o feminino não apenas beneficia os indivíduos que são alvo direto dessa discriminação, como também promove uma sociedade mais inclusiva, empática e progressista para todos. É hora de reconhecer e celebrar a riqueza da diversidade humana, em todas as suas formas, e construir um mundo onde ninguém seja julgado ou limitado por sua expressão de gênero.

domingo, 17 de março de 2024

A violência na vida de meninos gays

Acho válido dizer para início de conversa que não existe criança gay, mas existe algumas crianças que manifestam comportamentos e desejos diferente do padrão esperado para uma criança do sexo biológico masculino, por isso, é muito comum que algumas crianças, já na infância - e isso se alonga para adolescência, sejam acusadas de ser bichinha, viadinho, enfim, gay. A partir disso, se estabelece um quadro de violência que muitas vezes passa a fazer parte da vida desses meninos ditos ou percebidos como gays, impactando profundamente suas vivências e seu processo de formação.

Meninos ditos ou percebidos como gays na infância e na adolescência frequentemente enfrentam formas diversas de violência, seja ela física, verbal, moral ou psicológica. Essa violência pode ser manifestada por colegas na escola, membros da família, ou mesmo na sociedade em geral. Essa hostilidade pode ter um impacto avassalador na vida desses meninos, criando um ambiente de constante tensão e medo.

A presença da violência na vida desses meninos tem uma influência significativa em sua formação. A construção da identidade é um processo complexo para qualquer jovem, mas para aqueles que se identificam como gays, a violência pode criar barreiras consideráveis.

A violência pode levar a uma diminuição da autoestima e da autoaceitação. A hostilidade constante de colegas e a falta de apoio podem fazer com que esses meninos internalizem mensagens negativas sobre sua identidade.

O medo da violência e da discriminação pode fazer com que esses meninos evitem situações sociais, levando ao isolamento. Isso pode ter um efeito negativo em seu desenvolvimento social e emocional.

A exposição à violência pode aumentar o risco de problemas de saúde mental, como depressão, ansiedade e até mesmo suicídio. A falta de apoio emocional adequado pode agravar esses problemas.

A violência na escola pode afetar o desempenho acadêmico desses meninos, prejudicando seu acesso a oportunidades educacionais e profissionais.

Acusações de ser gay na adolescência

Na adolescência, os meninos percebidos como gays frequentemente enfrentam acusações do tipo: “você não é homem”, ou “viado, viadinho, bicha, bichinha”, ou “isso não é certo”, ou “isso não é de Deus”, ou “Deus pode te cura do homessexualismo” e por aí vai, independentemente de sua orientação sexual. Isso é especialmente prejudicial, pois estigmatiza a homossexualidade e perpetua a ideia de que ser gay é uma ofensa, é uma aberração, é um pecado, é uma doença.

Impactos das Acusações:

Reforço de estereótipos: Acusar um jovem de ser bichinha, viado, ou qualquer outra forma de hostilidades muitas vezes se baseia em estereótipos negativos, reforçando ideias preconceituosas sobre a homossexualidade. Isso pode fazer com que os meninos, os quais realmente se percebem como meninos gays, se sintam pressionados a conformar-se a padrões de comportamento tradicionalmente associados à masculinidade.

Efeitos psicológicos: As acusações podem causar angústia emocional e ansiedade nos adolescentes, forçando-os a lidar com o peso das expectativas sociais e a necessidade de se afirmar em uma idade em que a identidade ainda está em formação.

Impacto nas relações interpessoais: essas acusações podem prejudicar as relações interpessoais, tornando a busca por amizades e relacionamentos amorosos ainda mais desafiadora.

As violências na vida de meninos gays - acusações e hostilidades durante a infância e adolescência - desempenham um papel importante na formação desses jovens. É essencial reconhecer os impactos negativos que a violência pode ter em sua autoestima, saúde mental, desempenho acadêmico e relacionamentos. Combater a violência e o estigma associado à homossexualidade é fundamental para garantir que todos os jovens, independentemente de sua orientação sexual, possam crescer e se desenvolver de maneira saudável e segura. A educação, a conscientização e o apoio são instrumentos essenciais na construção de um ambiente mais inclusivo e acolhedor para os meninos gays e para toda a comunidade LGBTQ+.

Indicação de leitura:

SEVERINO, Thiago Saveda. Narrativas pessoais: a masculinidade hétero nas vivências do homem gay. 2022. Dissertação (Mestrado em Estudos Culturais) - Escola de Artes, Ciências e Humanidades, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2022. doi:10.11606/D.100.2022.tde-22072022-125402. Acesso em: 2024-03-17

sábado, 20 de janeiro de 2024

Um corpo gay

    Quando você vê a tua mãe e conversa com ela, você não vê um saco de pele, carne e ossos que fala, você vê uma pessoa importante para você que tem um nome, uma história, um vínculo afetivo, que se emociona, sente, que se articula para conviver com você e com as outras pessoas. Da mesma forma, quando você vai visitar uma amiga, ela tem um significado para você, ela existe para você e para todo mundo por meio do corpo dela. Quando você está na rua e vê inúmeras pessoas transitando, não são corpos estritamente biológicos, são corpos com inúmeros significados para você: um corpo tatuado pode significar para você que é uma pessoa descolada, um corpo coberto com uma blusinha fechada e uma saia cumprida até os tornozelos pode significar para você que é uma pessoa evangélica, um homem grande, robusto e de terno preto pode significar para você que é um segurança.

    O corpo não é apenas um fato biológico, ele é também o efeito de uma construção sociocultural. No sentido biológico, nascemos com uma estrutura e organização pré-determinada por uma dada genética que está vinculada aos nossos antecedentes, mas é inserido em uma cultura que o corpo inteiro e cada parte dele ganha sentido.

    Diante disso, um corpo gay é gay, porque ele é concebido dentro de um universo cultural próprio. Esse universo é dotado de características que designam ao corpo um tipo de comportamento, de vestimentas, de estética, de atitudes, de se comunicar, enfim, de gênero.

    Quando um menino é afeminado logo dizem que ele é gay. Olha só que interessante, as pessoas atribuem a uma criança um significado por causa do jeito que ela gesticula e movimenta o seu corpo. Espera-se de um homem negro que ele seja dotado e ativo, justamente por causa do sentido que se atribuiu ao corpo do homem negro em nossa cultura colonial (racista, sexista, objetificadora). Outra situação, se um homem rebola, é gay. Se um homem tem pinta de agroboy, skatista, lutador, jogador de futebol, ele não é pensado objetivamente como um corpo gay.

    Sobre esses tipos existem signos que os marcam como tal: barba, formato anatômico, roupas, tatuagens, trejeitos, atitudes, comportamentos, gostos, cor do cabelo e tamanho e corte, ou seja, a sua visualidade (e a visualidade acaba correspondendo a imagem da identidade da pessoa).

    Partindo dessas considerações, vamos pensar o corpo gay. Assim, como qualquer outro corpo, ele é produzido. Sim, ele representa todos os efeitos da sua existência nos contextos em que se realiza. Homens gays produzem seus corpos para se inserirem em grupos, para viver experiências, para fazer a manutenção da sua saúde e bem-estar, para atrair desejos, para conquistar afetos, para fazer negócios, para obter privilégios, para manifestar etnia, para exercer poder.

    Por isso, conseguimos observar circulando pela sociedade corpos mais próximos a um tipo padrão: barba, cabelo curto, músculos definidos, trejeitos mais robustos. Ou corpos que fogem ao padrão: gordos, magros, corpos vestidos com roupas do universo atribuído ao feminino, maquiagem, brincos, colares, sapatos de salto alto.

    É importante ressaltar que os corpos gays são diversos e passam por processos diferentes de construção. Muitos homens gays produzem corpos musculosos frequentando academias e usando anabolizantes, alguns corpos passam por procedimentos estéticos, cirurgias plásticas, massagens modeladoras, clareamento dental, aparelhos ortodônticos, terapias variadas à base de tecnologias e produtos farmacológicos, outros são tatuados, maquiados, furados com piercings e por aí vai. Eu vou atribuir nomes a esses processos a fim de ilustrá-los.

    Corpos instragramáveis produzidos para ficar apresentáveis em imagens, principalmente, em fotos. Corpos baladeiros produzidos para aguentar muitas horas de festas sem deixar a animação cair, inclusive com o uso de drogas recreativas. Corpos fashionistas produzidos para ostentar tendências e marcas. Corpos padrão e fora do padrão produzidos para marcar diferenças. Corpos marginais e marginalizados produzidos para fazer a manutenção de territórios sociais das cidades. Corpo como status social para garantir privilégios dentro de grupos. Corpo mercadoria para o mercado do sexo. Corpo idolatria produzidos para o lugar do desejo.

    Todos esses corpos carregam sobre si signos: silhuetas, musculatura aparente ou não, vestimentas, tatuagens, maquiagens, alterações plásticas, trejeitos, atitudes, comportamentos, cor da pele, tamanho e corte do cabelo, barba, bigode, pelos ou não. Estes signos aproximam ou distanciam corpos a um tipo padrão ou outros tipos mais incomuns ou marginalizados.

    Além disso, para o homem gay mostrar o corpo ou esconder o corpo tem finalidades diferentes, ora tem a ver com conseguir privilégios, ora tem a ver com evitar violências. Vale dizer também que o corpo é prazer e controle. Por fim, não vou me estender mais até porque nos próximos blogs eu exploro com mais detalhes estas últimas questões.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2024

Se passar por hétero

    Homens gays em algum momento ou constantemente tem que “se passar” por hétero. Aí você me pergunta: o que é “se passar” por hétero? É assim, as pessoas de modo geral têm uma expectativa de comportamento e/ou uma ideia comum do que é um homem hétero, então quando um homem gay corresponde a essa expectativa ou se parece com essa ideia comum de homem hétero, ele “se passa” por hétero. Isso é confuso, contraditório e para muitos não faz sentido, porém, talvez não seja tanto assim. Vamos falar sobre isso!

    No capítulo anterior, eu escrevi sobre os modelos de masculinidades, lá eu falei que há um modelo mais comum de masculinidade, o qual se estabeleceu como o padrão-normativo, é uma referência explícita e recomendada para todos os homens. A maior parte dos homens tem características comuns entre eles: pelos pelo corpo, corpos fortes, trejeitos robustos, rejeitam comportamentos que expressam sensibilidade, delicadeza, fragilidade, buscam mostrar frequentemente uma personalidade ativa, cheia de vigor e potência sexual (predação sexual). Esse modelo masculino é atribuído ao homem hétero, por isso qualquer homem que tenha essas características é visto como homem hétero, mesmo ele sendo um homem gay. Certamente, muitos de nós, homens gays, já ouvimos aquela tenebrosa frase: “mas, você não parece gay”. As pessoas dizem isso justamente, porque tem em mente esse modelo de masculinidade heterocentrado.

    Vale dizer que não existe uma masculinidade natural para homens héteros e uma para homens gays, como eu disse na anteriormente, existem modelos plurais. Logo, pode haver homens héteros delicados, sensíveis, com estruturas corporais diversas, com pelos aparados e sem barba e outras características que geralmente não são atribuídas aos homens héteros. Ele vai continuar sendo hétero. A mesma coisa acontece com homens gays. Não é porque o homem expressa sensibilidade, delicadeza, fragilidade, gosta de elementos do universo atribuído ao feminino que ele é gay.

    Diante disso, vamos retomar o assunto, muitos homens gays em certas ocasiões assumem rigorosamente as características de masculinidade de um modelo heterocentrado para não sofrer com chacotas, exclusão de grupos, agressão física, enfim, variados tipos de violências. Muitos homens gays “se passam” por hétero para poder serem aceitos por suas famílias, para poder fazer parte de um grupo de amigos, para se relacionar com os colegas de trabalho, para obter relações cordiais e afetuosas. Muitos homens gays “se passam” por hétero para ser desejados, pois o modelo heterocentrado é o mais desejado.

    Exemplos: na escola, às vezes, mesmo não querendo, meninos praticam esportes como o futebol para não sofrerem represálias por parte dos outros meninos. Na família, às vezes, meninos e homens não fazem o serviço doméstico para não serem repreendidos. Na balada, às vezes, homens mais parecidos com o modelo padrão heterocentrado tem preferência no flerte.

    Frequentemente muitos homens gays invisibilizam a sua identidade gay por causa das constantes violências a que estão expostos. “Se passar” por hétero é se proteger, se preservar e obter privilégios.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

Ser homem gay

    Repare uma coisa. Cada pessoa que você conhece tem características visíveis e não visíveis, as quais te faz reconhecê-la como sendo uma pessoa única, no entanto, você consegue reconhecer semelhanças dessa pessoa com outras pessoas e seus lugares. Veja bem, estou falando de identidade, estou falando de ser, cujo significado de acordo com o Dicionário Online de Português tem a ver com particularidade, capacidade, condição ou determinada circunstância. A visualidade da nossa identidade é nossa imagem, resultado de nossas relações com o mundo, com os outros e com a gente mesmo e aquilo que não é visível passa pelo mesmo processo. Isso acontece com todo mundo. Nossas identidades são forjadas no dia a dia de nossas relações desde quando nascemos. Bom, vou focar nas identidades gays, por isso, para começo de assunto, vamos pensar um pouco acerca da questão: o que é ser gay?

    Não vou usar o termo homossexual, porque a homossexualidade é uma categoria criada para diferenciar e controlar homens e mulheres fora de um padrão imposto de sexualidade. Mais para frente prometo discutir esse tópico em uma publicação específica sobre o tema. Eu vou usar o termo gay, justamente, porque acho que ele representa maior amplitude para se imaginar a figura de homens fora do padrão heterocentrado.

    Tendo isso em mente, vamos compreender o que significa de modo geral o termo, segundo explica o site Etimologia, a palavra gay é identificada “como um empréstimo do inglês, generalizando-se para indicar o indivíduo homossexual a partir de seu comportamento jovial e leve, cuja referência se distingue no francês gai, entendido como aquele que expressa um caráter alegre, associado ao alto alemão gāhi, indicando um estado de surpresa repentina, refletindo-se no espanhol antigo como gaio, no catalão gai, no italiano gaio e no espanhol gay, emergindo em todos os casos sobre uma possível raiz no occitano a partir das formas gai, jai, por alegre . A relação do termo gay com a homossexualidade remonta ao início do século XX nos Estados Unidos, lembrando que a primeira manifestação do Orgulho Gay ocorreu em junho de 1970, em Nova York”. Além disso, modernamente, atribuímos o termo gay mais aos homens.

    Partindo disso, posso dizer que há um leque de diferentes tonalidades para ser um homem gay, porque me parece que a centralidade da identidade gay é ser alegre, é se distinguir do comportamento comum aos outros homens, é fugir de uma atitude socialmente controlada. É importante dizer que em tempos anteriores, bem antes do uso do termo gay, os homens gays eram chamados de outros nomes, inclusive, de homens alegres. Enfim, me parece que a alegria na verdade está relacionada ao jeito de homens gays se comportarem, falarem, encararem a vida que se mostrava diferente da maneira de outros homens.

    Além desse sentido, existem outros atribuídos ao termo que foram se estabelecendo ao longo dos anos. Sempre me incomodei com esta coisa de pessoas, amigos, familiares falarem: “Ah! Mas você não é homem. Você é gay.” Na minha cabeça, eu pensava: “Espera! Eu sou homem que gosta de homem”, ser gay é ser homem, uma coisa não exclui a outra. Aí eu pergunto: quais são os sentidos sociais presentes nessa declaração? Com o tempo eu fui tendo contato com leituras, filmes, pessoas que me ajudaram a elaborar isso na minha cabeça. É uma declaração frequente na boca de homens e mulheres do nosso convívio diário, então é um discurso já incorporado, se tornou uma “verdade”.

    Quando alguém diz “você não é homem”, este alguém está negando a humanidade e todos os direitos que um homem gay tem sobre essa humanidade comum entre os homens, pactuada por meio da masculinidade e, quando diz “você é gay”, está coisificando a pessoa, reforçando o caráter inumano e colocando-a numa posição de objeto. E qual é o tratamento que se dá aos objetos? Objeto tem valor utilitário. Você usa para determinado fim, mas não precisando mais, você o desconsidera.

    Dito isso, vamos aos modelos de masculinidades gays. Vou começar com o modelo de masculinidade mais conhecido, mais usual, mais privilegiado, mais valorizado, mais desejado, ou seja, o hegemônico. (significado de hegemônico). Não sou eu que estou conferindo toda essas honrarias a este modelo, foi a sociedade que fez isso com o passar do tempo. O modelo hegemônico se estabeleceu como o padrão-normativo, é uma referência explícita e recomendada para todos os homens. Observe que a maioria dos homens tem pelos pelo corpo, valorizam o corpo forte, trejeitos robustos, rejeitam comportamentos que expressam sensibilidade, delicadeza, fragilidade, buscam mostrar frequentemente uma personalidade ativa, cheia de vigor e potência sexual (predação sexual).

    Os homens gays mais próximos dessas características são considerados mais masculinos e, quanto mais um homem gay se distância disso, mais ele vai perdendo valor em masculinidade e vai sendo desviado para o feminino. Logo, quanto mais parecido com o padrão, mais homem, quanto mais distante do padrão, menos homem.

    Veja bem, não estou falando de certo e errado, estou falando de construções socioculturais que deram origem a uma referência “natural” para os homens (na verdade, se naturalizou). Só que não existe um modelo natural, não existe um modelo de masculinidade feito pela natureza, não existe nenhum órgão do corpo humano que produza a masculinidade, nenhuma substância do organismo é capaz de fazer isso. A masculinidade não se centra no pênis e o pênis sozinho não determina a condição de ser homem, por essa razão encontramos por aí formatos plurais de masculinidades. Exemplo: homens héteros com pênis amputado por motivo de doença. Ou homens trans.

    É importante destacar as identidades gays nas fronteiras. Uma fronteira é uma linha que divide territórios e até mesmo zonas morais. É conhecida, principalmente, por ser um limite político e separar grupos de pessoas, no entanto, geralmente, essas pessoas podem se movimentar livremente dentro das fronteiras de seus próprios territórios ou zonas, porém, para entrar em outro grupo precisa de uma certa “permissão” ou um certo conhecimento do mesmo e fazer uso disso para transitar. Lembrando que até mesmo grupos de pessoas têm sistemas políticos semelhantes ou acordos pré-negociados, suas fronteiras podem ser abertas e não defendidas. Tomando isso de forma literal e também metafórica, podemos destacar as identidades que se movimentam constantemente nas fronteiras. De modo geral, são móveis, flexíveis, subversivas, rebeldes, corajosas, capazes de movimentar a hierarquia dos modelos masculinos, a qual luta para se manter imóvel. Nesse grupo, não há um padrão único, há, na verdade, um encontro, ampliando tipos, expressões e vivências. Tem um pouco de masculino e de não masculino, de feminino e de não feminino e outras possibilidades de ser, participar e expressar.

    Quero terminar este artigo lembrando que vou dar uma sequência para esse assunto que se desdobrará em outras publicações deste blog, pois neles irei abordar outras questões relacionadas a identidades gays, portanto, não vou concluir por aqui, aliás nem que eu quisesse esse assunto não se conclui.


Indicação de leitura

Narrativas pessoais: a masculinidade hétero nas vivências do homem gay

autor: Thiago Saveda Severino

O presente estudo buscou apreender a influência e o impacto da ideia de masculinidade hegemônica na vivência e identidade de homens gays. A pesquisa, qualitativa, contou como técnicas, com a coleta de relatos escritos de experiência pessoal; entrevista semiestruturada e utilização de imagens. Os participantes deste estudo foram 8 homens gays com idade entre 28 e 41 anos que se deslocaram de cidades do interior de estados brasileiros para a capital de São Paulo. No tocante aos resultados pode ser observado que a construção da identidade gay desses homens se dá a partir de um padrão hegemônico de masculinidade. Nesse processo, há uma constante negociação da visibilidade e invisibilidade de seus corpos, tendo como objetivo a construção de uma imagem de homem hétero. Verificou-se entre os entrevistados, vivências comuns de contextos marcados por ações masculinizantes, implícitas e explícitas, coordenadas por setores diversos da sociedade, dentre os quais, o ambiente escolar e a esfera doméstica. Do mesmo modo, a violência, sempre presente na memória, como forma de orientar e supervisionar as suas experiências de vida; o trânsito do corpo como uma passagem de reconhecimento de si e para a liberdade; o toque sendo descrito como um elemento importante no desenvolvimento do afeto e na descoberta do corpo de si e do outro. Por fim, o afeto entre homens é revelado como um elemento sob o controle da sociedade, sendo autorizado ou não, assim como o desejo, o qual, por um lado, é compreendido como via de prazer, por outro, é visto como algo proibido pela sociedade. É possível concluir do estudo que os homens entrevistados se apropriam de comportamentos que expressam aspectos marcantes da masculinidade hegemônica. No corpo é circunscrito os signos da masculinidade e pelo corpo eles demarcam e revelam sinais relacionados à masculinidade: virilidade, potência sexual, força, rigidez. Corpos musculosos, joviais e com pelos suportam os aspectos simbólicos intrínsecos e necessários para mantê-los passáveis como héteros, garantindo-lhes alguns dos privilégios dados aos homens heterossexuais que ocupam o alto topo da hierarquia no tocante ao modelo de masculinidade. Para tanto, há uma constante produção de uma masculinidade cuja baliza tem como medida a heterossexualidade, considerada por eles como um fato natural. Observa-se entre os participantes que as masculinidades que mais legitimam são, portanto, aquelas heterocentradas.
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