Mostrando postagens com marcador Identidade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Identidade. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 17 de maio de 2024

A homossexualidade não existe (parte 1)

A afirmação inicial de que "a homossexualidade não existe" pode ser vista como uma provocação, destinada a estimular a reflexão sobre a complexidade das identidades sexuais e a fluidez da sexualidade. De fato, o título poderia ser substituído por "A Heterossexualidade não existe", "A Bissexualidade não existe", ou qualquer outra orientação sexual, pois o cerne da questão é discutir como as categorias e rótulos sexuais afetam a forma como vemos e vivenciamos o mundo.

Desconstruindo hierarquias e sua rigidez: críticas às categorias da sexualidade

Os termos "homo", "hetero", "bi", "trans" são usados para diferenciar e categorizar a sexualidade em identidades sexuais, porém, em uma sociedade permeada por normas e preconceitos, essas diferenciações podem levar a hierarquias de valor. A heterossexualidade é frequentemente vista como a natural, como a norma, o padrão pelo qual todas as outras orientações sexuais são julgadas. Essa hierarquia implica que as pessoas heterossexuais têm mais valor do que as pessoas com outras orientações sexuais, todavia, essa hierarquia é arbitrária e injusta, pois, como é construída sobre equívocos conceituais (advindos principalmente da religião em forma de opressão, cerceamento, desvio, demonização), não há uma base objetiva para atribuir mais valor a uma orientação sexual do que a outra.

Uma das principais críticas a essas categorias é que elas tendem a fixar a sexualidade, tornando-a rígida e inflexível. A ideia de que alguém é permanentemente "homossexual" ou "heterossexual" impede o reconhecimento da fluidez da sexualidade. A sexualidade humana é inerentemente complexa e variável e as pessoas podem experimentar mudanças ao longo de suas vidas. A rigidez dessas categorias é inadequada, pois impõe limites à liberdade sexual e ao desenvolvimento pessoal.

Explorando a complexidade da sexualidade humana

O contato dos corpos, o uso das genitálias, o ato sexual e a penetração, o efeito do uso das partes sensíveis do corpo pode ocorrer biologicamente, contudo o prazer depende de como a pessoa interpreta o ato. Isso destaca a importância de se entender que o sexo não é um ato estritamente definido, mas sim uma experiência que varia de pessoa para pessoa. A sexualidade envolve mais do que a atividade física; também envolve emoções, desejo e conexões interpessoais.

Além disso, a ideia de que existem maneiras "certas" ou "erradas" de experimentar o prazer sexual é problemática. Cada indivíduo é único e o que traz prazer a uma pessoa pode não ser o mesmo para outra. Julgar ou estigmatizar as preferências e experiências sexuais dos outros é uma manifestação do mesmo regime de opressão que coloca hierarquias sobre as identidades sexuais.

Explorando a diversidade sexual: respeitando a fluidez e autenticidade

Uma abordagem mais inclusiva e respeitosa em relação à sexualidade envolve reconhecer a diversidade das experiências humanas e a fluidez das sexualidades. Em vez de tentar categorizar as pessoas em rótulos rígidos, devemos permitir que cada indivíduo explore e defina sua própria sexualidade de maneira que seja autêntica e satisfatória para eles.

Por fim, a afirmação de que "a homossexualidade não existe" serve como um ponto de partida para uma discussão mais ampla sobre as complexidades da sexualidade e a sua fluidez. As categorias sexuais podem ser úteis para a compreensão e o diálogo, porém também podem ser limitantes e prejudiciais quando usadas para impor normas e hierarquias. A verdadeira liberdade sexual está em reconhecer e respeitar a diversidade das experiências humanas, permitindo que cada indivíduo explore a sua sexualidade de forma autêntica e sem julgamentos.

Outros problemas a se discutir

Dentro desse assunto, há outras questões a se problematizar, como: a inadequação da expressão "orientação sexual" e a concepção da homossexualidade a partir de uma perspectiva androcêntrica, no entanto, isso fica para uma outra publicação.


Sugestão de leitura:

Narrativas pessoais: a masculinidade hétero nas vivências do homem gay

O presente estudo buscou apreender a influência e o impacto da ideia de masculinidade hegemônica na vivência e identidade de homens gays. A pesquisa, qualitativa, contou como técnicas, com a coleta de relatos escritos de experiência pessoal; entrevista semiestruturada e utilização de imagens. Os participantes deste estudo foram 8 homens gays com idade entre 28 e 41 anos que se deslocaram de cidades do interior de estados brasileiros para a capital de São Paulo. No tocante aos resultados pode ser observado que a construção da identidade gay desses homens se dá a partir de um padrão hegemônico de masculinidade. Nesse processo, há uma constante negociação da visibilidade e invisibilidade de seus corpos, tendo como objetivo a construção de uma imagem de homem hétero. Verificou-se entre os entrevistados, vivências comuns de contextos marcados por ações masculinizantes, implícitas e explícitas, coordenadas por setores diversos da sociedade, dentre os quais, o ambiente escolar e a esfera doméstica. Do mesmo modo, a violência, sempre presente na memória, como forma de orientar e supervisionar as suas experiências de vida; o trânsito do corpo como uma passagem de reconhecimento de si e para a liberdade; o toque sendo descrito como um elemento importante no desenvolvimento do afeto e na descoberta do corpo de si e do outro. Por fim, o afeto entre homens é revelado como um elemento sob o controle da sociedade, sendo autorizado ou não, assim como o desejo, o qual, por um lado, é compreendido como via de prazer, por outro, é visto como algo proibido pela sociedade. É possível concluir do estudo que os homens entrevistados se apropriam de comportamentos que expressam aspectos marcantes da masculinidade hegemônica. No corpo é circunscrito os signos da masculinidade e pelo corpo eles demarcam e revelam sinais relacionados à masculinidade: virilidade, potência sexual, força, rigidez. Corpos musculosos, joviais e com pelos suportam os aspectos simbólicos intrínsecos e necessários para mantê-los passáveis como héteros, garantindo-lhes alguns dos privilégios dados aos homens heterossexuais que ocupam o alto topo da hierarquia no tocante ao modelo de masculinidade. Para tanto, há uma constante produção de uma masculinidade cuja baliza tem como medida a heterossexualidade, considerada por eles como um fato natural. Observa-se entre os participantes que as masculinidades que mais legitimam são, portanto, aquelas heterocentradas.


Personal narratives: the hetero masculinity in the gay man's experiences

The present study sought to understand the influence and impact of the idea of hegemonic masculinity on the experience and identity of gay men. The research, qualitative, counted as techniques, with the collection of written reports of personal experience; semi-structured interview and use of images. The participants of this study were 8 gay men aged between 28 and 41 years old who moved from cities in the interior of Brazilian states to the capital of São Paulo. Regarding the results, it can be observed that the construction of the gay identity of these men takes place from a hegemonic pattern of masculinity. In this process, there is a constant negotiation of the visibility and invisibility of their bodies, with the objective of building an image of a straight man. It was found among the interviewees, common experiences of contexts marked by masculinizing actions, implicit and explicit, coordinated by different sectors of society, among which, the school environment and the domestic sphere. Likewise, violence, always present in memory, as a way of guiding and supervising their life experiences; the transit of the body as a passage of self-recognition and towards freedom; touch being described as an important element in the development of affection and in the discovery of the body of oneself and the other. Finally, affection between men is revealed as an element under the control of society, whether authorized or not, as well as desire, which, on the one hand, is understood as a way of pleasure, on the other, is seen as something prohibited. by society. It is possible to conclude from the study that the men interviewed adopt behaviors that express striking aspects of hegemonic masculinity. The signs of masculinity are circumscribed in the body and through the body they demarcate and reveal signs related to masculinity: virility, sexual potency, strength, rigidity. Muscular, youthful and hairy bodies support the intrinsic and necessary symbolic aspects to keep them passable as heterosexuals, guaranteeing them some of the privileges given to heterosexual men who occupy the top of the hierarchy regarding the model of masculinity. Therefore, there is a constant production of a masculinity whose goal is heterosexuality, considered by them as a natural fact. It is observed among the participants that the masculinities that most legitimize are, therefore, those that are heterocentric.

Link de acesso, clique aqui.


quinta-feira, 25 de abril de 2024

Desestigmatizar o feminino: uma necessidade social urgente

Nos meandros da sociedade contemporânea, persiste um estigma que, lamentavelmente, muitas vezes é aceito tacitamente: a estigmatização do feminino. Este fenômeno insidioso, enraizado em preconceitos e ideias ultrapassadas, encontra expressão em diversas esferas da vida, uma das quais é a estigmatização do homem afeminado.

Os estereótipos de gênero e a marginalização do feminino na sociedade moderna

A ideia de que um homem possa expressar traços considerados "femininos" e, consequentemente, ser alvo de discriminação e marginalização é um reflexo direto do estigma associado ao feminino. Desde tenra idade, somos ensinados a valorizar certas características e comportamentos associados ao que é considerado "masculino", enquanto relegamos tudo o que é percebido como "feminino" a um papel secundário, ou pior, a algo digno de vergonha e repúdio.

Problematizando a masculinidade heterocentrada: impactos além dos indivíduos afeminados

A masculinidade heterocentrada, uma construção social que impõe uma visão restrita e prejudicial do que significa ser homem, é uma das principais impulsionadoras desse estigma. Sob essa ideologia, expressões de sensibilidade, empatia e outros traços associados ao feminino são vistas como sinais de fraqueza ou inferioridade. Assim, os homens que se desviam desse padrão são frequentemente alvo de zombaria, violência verbal e até mesmo física.

É essencial reconhecer que essa estigmatização não prejudica apenas os homens afeminados, mas também perpetua a desigualdade de gênero e prejudica toda a sociedade. Ao associar negativamente o feminino, limitamos o espectro de comportamentos e emoções considerados socialmente aceitáveis para todos, independentemente do gênero. Isso contribui para a manutenção de estruturas de poder desiguais e para a marginalização das mulheres e de qualquer pessoa que não se encaixe nas normas estritas de gênero.

Valorizando o feminino: um passo crucial para uma sociedade mais justa e inclusiva

Desestigmatizar o feminino não significa apenas aceitar e celebrar a diversidade de expressões de gênero, mas também reconhecer o valor intrínseco de características consideradas tradicionalmente femininas, como empatia, sensibilidade e cooperação. Esses traços são essenciais para a construção de uma sociedade mais justa, compassiva e equitativa.

Portanto, é necessário que comecemos a desafiar ativamente o estigma associado ao feminino em todas as suas formas. Isso requer uma mudança cultural profunda, que começa com a desconstrução das normas de gênero restritivas e a promoção da igualdade em todas as áreas da vida. Devemos educar e incentivar as gerações futuras a valorizar a diversidade de experiências e identidades de gênero e a rejeitar qualquer forma de discriminação baseada em estereótipos ultrapassados.

Construindo um mundo de igualdade e aceitação: celebrando a diversidade de gênero e promovendo uma sociedade inclusiva

Diante disso, vale destacar que desestigmatizar o feminino não apenas beneficia os indivíduos que são alvo direto dessa discriminação, como também promove uma sociedade mais inclusiva, empática e progressista para todos. É hora de reconhecer e celebrar a riqueza da diversidade humana, em todas as suas formas, e construir um mundo onde ninguém seja julgado ou limitado por sua expressão de gênero.

terça-feira, 23 de abril de 2024

O valor inestimável da história de vida na orientação das crianças

Na trajetória da educação, há um elemento crucial muitas vezes negligenciado: a história de vida. Por séculos, a paideia, conceito grego de formação integral do indivíduo, reconheceu a importância não apenas do conhecimento acadêmico, mas também das experiências de vida na formação de crianças e jovens. Nesse contexto, a tradicional roda de conversa entre família emerge como um poderoso veículo para transmitir essas histórias de vida às gerações mais jovens, carregando consigo uma riqueza de sabedoria acumulada ao longo dos anos.

O legado da paideia: educação holística e a importância das experiências de vida

A paideia grega valorizava não apenas o ensino de matemática, filosofia ou retórica, mas também a transmissão de valores, tradições e experiências vividas. Era através das histórias de vida dos mais velhos que os mais jovens aprendiam não apenas sobre o mundo ao seu redor, mas também sobre si mesmos, suas origens e seu lugar na sociedade. Essa abordagem holística da educação reconhecia que a verdadeira sabedoria não reside apenas nos livros, mas também nas experiências humanas compartilhadas.

Fortalecendo vínculos e cultivando sabedoria: o papel transformador da roda de conversa familiar

A roda de conversa familiar, um espaço onde adultos compartilham suas histórias de infância e juventude com as crianças, representa uma manifestação contemporânea dessa tradição milenar. É nesse ambiente acolhedor e íntimo que as crianças têm a oportunidade não apenas de conhecer a história de seus pais, avós ou outros familiares, mas também de se conectarem com eles em um nível mais profundo. Esses relatos pessoais não apenas enriquecem o repertório cultural da criança, mas também fortalecem os laços familiares e proporcionam um senso de identidade e pertencimento.

Além disso, as histórias de vida oferecem valiosos ensinamentos práticos que não podem ser encontrados nos livros didáticos. Ao ouvir sobre os desafios, conquistas e aprendizados de seus familiares mais velhos, as crianças ganham insights sobre como enfrentar adversidades, tomar decisões difíceis e cultivar relacionamentos significativos. Essas narrativas pessoais servem como um guia prático para a vida, fornecendo exemplos concretos de como lidar com as complexidades do mundo real.

É importante ressaltar que a roda de conversa não se trata apenas de transmitir conhecimento, mas também de cultivar habilidades como empatia, escuta ativa e respeito mútuo. À medida que as crianças ouvem atentamente as histórias de seus familiares, elas desenvolvem uma compreensão mais profunda da diversidade de experiências humanas e aprendem a valorizar as perspectivas dos outros. Esse diálogo intergeracional não só fortalece os laços familiares, mas também promove uma sociedade mais inclusiva e solidária.

Salvaguardando a tradição no mundo digital: o compromisso com a preservação da roda de conversa familiar

É importante reconhecer que, em um mundo cada vez mais digitalizado e acelerado, a tradição da roda de conversa corre o risco de se perder. É fundamental que as famílias e as instituições educacionais redobrem seus esforços para preservar esse ritual valioso, proporcionando oportunidades regulares para que as histórias de vida sejam compartilhadas e celebradas.

Diante disso, vale ressaltar que o valor da história de vida na orientação das crianças é imensurável. Desde os tempos da paideia grega até os dias atuais, as experiências vividas continuam a desempenhar um papel fundamental na formação integral do indivíduo. Através da roda de conversa familiar, as crianças têm a oportunidade não apenas de aprender com as experiências de seus familiares, mas também de se conectar com eles em um nível mais profundo. Que possamos valorizar e preservar essa tradição ancestral, reconhecendo o poder transformador das histórias de vida na educação das gerações futuras.

quarta-feira, 17 de abril de 2024

A sombra da artificialidade

No mundo contemporâneo, a presença constante da artificialidade parece subjugar a essência humana, deixando pouco espaço para a autenticidade e a expressão genuína do ser. Em meio a avanços tecnológicos e a crescente integração de dispositivos digitais em nossas vidas, surge a problemática: estamos perdendo nossa humanidade para a artificialidade? Quero, aqui, propor uma reflexão sobre essa questão, destacando exemplos da presente artificialidade no cotidiano e debatendo a importância vital de manter vivos aspectos fundamentais da experiência humana, tais como sentir, errar, ser autêntico e mostrar versões nem sempre glamorosas da existência.

A ascensão da artificialidade no cotidiano

A presença da artificialidade se faz sentir em diversas esferas da vida moderna. Um exemplo disso é a prevalência das interações virtuais em detrimento das relações presenciais. As redes sociais muitas vezes promovem uma versão idealizada e artificial das vidas das pessoas, onde imperfeições são escondidas e filtros são aplicados para criar uma imagem de perfeição inatingível.

Além disso, a proliferação da inteligência artificial e da automação está redefinindo não apenas o mercado de trabalho, como também as interações sociais e até mesmo a forma como percebemos o mundo ao nosso redor. Desde algoritmos que preveem nossas preferências até robôs que simulam emoções, a fronteira entre o natural e o artificial está se tornando cada vez mais difusa.

A importância de ser humano

Em meio a esse contexto, é crucial reafirmar a importância da humanidade. Sentir emoções, errar, ser autêntico e mostrar vulnerabilidade são elementos essenciais da experiência humana que não podem ser replicados por máquinas. São esses aspectos que nos tornam verdadeiramente humanos, capazes de empatia, compaixão e conexão genuína com os outros.

O ato de sentir, por exemplo, é fundamental para nossa compreensão do mundo e de nós mesmos. A tristeza nos permite processar perdas, o medo nos alerta para perigos iminentes e a alegria nos vincula aos momentos de felicidade. Privar-nos dessas emoções, ou tentar substituí-las por simulacros artificiais, é negar nossa própria humanidade.

Da mesma forma, o erro é uma parte inevitável do processo de aprendizado e crescimento. Ao tentar evitar o erro a todo custo, corremos o risco de estagnar em nossa jornada de desenvolvimento pessoal e profissional. Aceitar nossas falhas e aprender com elas é o que nos permite evoluir e nos tornar versões melhores de nós mesmos.

Ser autêntico, por sua vez, é um ato de coragem em um mundo que muitas vezes valoriza a conformidade e a superficialidade. Mostrar nossas imperfeições e vulnerabilidades pode ser intimidante, mas é também o que nos torna autênticos e verdadeiros em nossas interações com os outros. É através da autenticidade que construímos relacionamentos genuínos e significativos.

Por fim, em um mundo cada vez mais dominado pela artificialidade, é fundamental reafirmar a importância da humanidade. Sentir, errar, ser autêntico e mostrar vulnerabilidade são aspectos essenciais da experiência humana que não devem ser negligenciados. Ao reconhecer e valorizar nossa própria humanidade, podemos resistir à crescente influência da artificialidade e encontrar significado e conexão genuína em nossas vidas.

sábado, 20 de janeiro de 2024

Um corpo gay

    Quando você vê a tua mãe e conversa com ela, você não vê um saco de pele, carne e ossos que fala, você vê uma pessoa importante para você que tem um nome, uma história, um vínculo afetivo, que se emociona, sente, que se articula para conviver com você e com as outras pessoas. Da mesma forma, quando você vai visitar uma amiga, ela tem um significado para você, ela existe para você e para todo mundo por meio do corpo dela. Quando você está na rua e vê inúmeras pessoas transitando, não são corpos estritamente biológicos, são corpos com inúmeros significados para você: um corpo tatuado pode significar para você que é uma pessoa descolada, um corpo coberto com uma blusinha fechada e uma saia cumprida até os tornozelos pode significar para você que é uma pessoa evangélica, um homem grande, robusto e de terno preto pode significar para você que é um segurança.

    O corpo não é apenas um fato biológico, ele é também o efeito de uma construção sociocultural. No sentido biológico, nascemos com uma estrutura e organização pré-determinada por uma dada genética que está vinculada aos nossos antecedentes, mas é inserido em uma cultura que o corpo inteiro e cada parte dele ganha sentido.

    Diante disso, um corpo gay é gay, porque ele é concebido dentro de um universo cultural próprio. Esse universo é dotado de características que designam ao corpo um tipo de comportamento, de vestimentas, de estética, de atitudes, de se comunicar, enfim, de gênero.

    Quando um menino é afeminado logo dizem que ele é gay. Olha só que interessante, as pessoas atribuem a uma criança um significado por causa do jeito que ela gesticula e movimenta o seu corpo. Espera-se de um homem negro que ele seja dotado e ativo, justamente por causa do sentido que se atribuiu ao corpo do homem negro em nossa cultura colonial (racista, sexista, objetificadora). Outra situação, se um homem rebola, é gay. Se um homem tem pinta de agroboy, skatista, lutador, jogador de futebol, ele não é pensado objetivamente como um corpo gay.

    Sobre esses tipos existem signos que os marcam como tal: barba, formato anatômico, roupas, tatuagens, trejeitos, atitudes, comportamentos, gostos, cor do cabelo e tamanho e corte, ou seja, a sua visualidade (e a visualidade acaba correspondendo a imagem da identidade da pessoa).

    Partindo dessas considerações, vamos pensar o corpo gay. Assim, como qualquer outro corpo, ele é produzido. Sim, ele representa todos os efeitos da sua existência nos contextos em que se realiza. Homens gays produzem seus corpos para se inserirem em grupos, para viver experiências, para fazer a manutenção da sua saúde e bem-estar, para atrair desejos, para conquistar afetos, para fazer negócios, para obter privilégios, para manifestar etnia, para exercer poder.

    Por isso, conseguimos observar circulando pela sociedade corpos mais próximos a um tipo padrão: barba, cabelo curto, músculos definidos, trejeitos mais robustos. Ou corpos que fogem ao padrão: gordos, magros, corpos vestidos com roupas do universo atribuído ao feminino, maquiagem, brincos, colares, sapatos de salto alto.

    É importante ressaltar que os corpos gays são diversos e passam por processos diferentes de construção. Muitos homens gays produzem corpos musculosos frequentando academias e usando anabolizantes, alguns corpos passam por procedimentos estéticos, cirurgias plásticas, massagens modeladoras, clareamento dental, aparelhos ortodônticos, terapias variadas à base de tecnologias e produtos farmacológicos, outros são tatuados, maquiados, furados com piercings e por aí vai. Eu vou atribuir nomes a esses processos a fim de ilustrá-los.

    Corpos instragramáveis produzidos para ficar apresentáveis em imagens, principalmente, em fotos. Corpos baladeiros produzidos para aguentar muitas horas de festas sem deixar a animação cair, inclusive com o uso de drogas recreativas. Corpos fashionistas produzidos para ostentar tendências e marcas. Corpos padrão e fora do padrão produzidos para marcar diferenças. Corpos marginais e marginalizados produzidos para fazer a manutenção de territórios sociais das cidades. Corpo como status social para garantir privilégios dentro de grupos. Corpo mercadoria para o mercado do sexo. Corpo idolatria produzidos para o lugar do desejo.

    Todos esses corpos carregam sobre si signos: silhuetas, musculatura aparente ou não, vestimentas, tatuagens, maquiagens, alterações plásticas, trejeitos, atitudes, comportamentos, cor da pele, tamanho e corte do cabelo, barba, bigode, pelos ou não. Estes signos aproximam ou distanciam corpos a um tipo padrão ou outros tipos mais incomuns ou marginalizados.

    Além disso, para o homem gay mostrar o corpo ou esconder o corpo tem finalidades diferentes, ora tem a ver com conseguir privilégios, ora tem a ver com evitar violências. Vale dizer também que o corpo é prazer e controle. Por fim, não vou me estender mais até porque nos próximos blogs eu exploro com mais detalhes estas últimas questões.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

Ser homem gay

    Repare uma coisa. Cada pessoa que você conhece tem características visíveis e não visíveis, as quais te faz reconhecê-la como sendo uma pessoa única, no entanto, você consegue reconhecer semelhanças dessa pessoa com outras pessoas e seus lugares. Veja bem, estou falando de identidade, estou falando de ser, cujo significado de acordo com o Dicionário Online de Português tem a ver com particularidade, capacidade, condição ou determinada circunstância. A visualidade da nossa identidade é nossa imagem, resultado de nossas relações com o mundo, com os outros e com a gente mesmo e aquilo que não é visível passa pelo mesmo processo. Isso acontece com todo mundo. Nossas identidades são forjadas no dia a dia de nossas relações desde quando nascemos. Bom, vou focar nas identidades gays, por isso, para começo de assunto, vamos pensar um pouco acerca da questão: o que é ser gay?

    Não vou usar o termo homossexual, porque a homossexualidade é uma categoria criada para diferenciar e controlar homens e mulheres fora de um padrão imposto de sexualidade. Mais para frente prometo discutir esse tópico em uma publicação específica sobre o tema. Eu vou usar o termo gay, justamente, porque acho que ele representa maior amplitude para se imaginar a figura de homens fora do padrão heterocentrado.

    Tendo isso em mente, vamos compreender o que significa de modo geral o termo, segundo explica o site Etimologia, a palavra gay é identificada “como um empréstimo do inglês, generalizando-se para indicar o indivíduo homossexual a partir de seu comportamento jovial e leve, cuja referência se distingue no francês gai, entendido como aquele que expressa um caráter alegre, associado ao alto alemão gāhi, indicando um estado de surpresa repentina, refletindo-se no espanhol antigo como gaio, no catalão gai, no italiano gaio e no espanhol gay, emergindo em todos os casos sobre uma possível raiz no occitano a partir das formas gai, jai, por alegre . A relação do termo gay com a homossexualidade remonta ao início do século XX nos Estados Unidos, lembrando que a primeira manifestação do Orgulho Gay ocorreu em junho de 1970, em Nova York”. Além disso, modernamente, atribuímos o termo gay mais aos homens.

    Partindo disso, posso dizer que há um leque de diferentes tonalidades para ser um homem gay, porque me parece que a centralidade da identidade gay é ser alegre, é se distinguir do comportamento comum aos outros homens, é fugir de uma atitude socialmente controlada. É importante dizer que em tempos anteriores, bem antes do uso do termo gay, os homens gays eram chamados de outros nomes, inclusive, de homens alegres. Enfim, me parece que a alegria na verdade está relacionada ao jeito de homens gays se comportarem, falarem, encararem a vida que se mostrava diferente da maneira de outros homens.

    Além desse sentido, existem outros atribuídos ao termo que foram se estabelecendo ao longo dos anos. Sempre me incomodei com esta coisa de pessoas, amigos, familiares falarem: “Ah! Mas você não é homem. Você é gay.” Na minha cabeça, eu pensava: “Espera! Eu sou homem que gosta de homem”, ser gay é ser homem, uma coisa não exclui a outra. Aí eu pergunto: quais são os sentidos sociais presentes nessa declaração? Com o tempo eu fui tendo contato com leituras, filmes, pessoas que me ajudaram a elaborar isso na minha cabeça. É uma declaração frequente na boca de homens e mulheres do nosso convívio diário, então é um discurso já incorporado, se tornou uma “verdade”.

    Quando alguém diz “você não é homem”, este alguém está negando a humanidade e todos os direitos que um homem gay tem sobre essa humanidade comum entre os homens, pactuada por meio da masculinidade e, quando diz “você é gay”, está coisificando a pessoa, reforçando o caráter inumano e colocando-a numa posição de objeto. E qual é o tratamento que se dá aos objetos? Objeto tem valor utilitário. Você usa para determinado fim, mas não precisando mais, você o desconsidera.

    Dito isso, vamos aos modelos de masculinidades gays. Vou começar com o modelo de masculinidade mais conhecido, mais usual, mais privilegiado, mais valorizado, mais desejado, ou seja, o hegemônico. (significado de hegemônico). Não sou eu que estou conferindo toda essas honrarias a este modelo, foi a sociedade que fez isso com o passar do tempo. O modelo hegemônico se estabeleceu como o padrão-normativo, é uma referência explícita e recomendada para todos os homens. Observe que a maioria dos homens tem pelos pelo corpo, valorizam o corpo forte, trejeitos robustos, rejeitam comportamentos que expressam sensibilidade, delicadeza, fragilidade, buscam mostrar frequentemente uma personalidade ativa, cheia de vigor e potência sexual (predação sexual).

    Os homens gays mais próximos dessas características são considerados mais masculinos e, quanto mais um homem gay se distância disso, mais ele vai perdendo valor em masculinidade e vai sendo desviado para o feminino. Logo, quanto mais parecido com o padrão, mais homem, quanto mais distante do padrão, menos homem.

    Veja bem, não estou falando de certo e errado, estou falando de construções socioculturais que deram origem a uma referência “natural” para os homens (na verdade, se naturalizou). Só que não existe um modelo natural, não existe um modelo de masculinidade feito pela natureza, não existe nenhum órgão do corpo humano que produza a masculinidade, nenhuma substância do organismo é capaz de fazer isso. A masculinidade não se centra no pênis e o pênis sozinho não determina a condição de ser homem, por essa razão encontramos por aí formatos plurais de masculinidades. Exemplo: homens héteros com pênis amputado por motivo de doença. Ou homens trans.

    É importante destacar as identidades gays nas fronteiras. Uma fronteira é uma linha que divide territórios e até mesmo zonas morais. É conhecida, principalmente, por ser um limite político e separar grupos de pessoas, no entanto, geralmente, essas pessoas podem se movimentar livremente dentro das fronteiras de seus próprios territórios ou zonas, porém, para entrar em outro grupo precisa de uma certa “permissão” ou um certo conhecimento do mesmo e fazer uso disso para transitar. Lembrando que até mesmo grupos de pessoas têm sistemas políticos semelhantes ou acordos pré-negociados, suas fronteiras podem ser abertas e não defendidas. Tomando isso de forma literal e também metafórica, podemos destacar as identidades que se movimentam constantemente nas fronteiras. De modo geral, são móveis, flexíveis, subversivas, rebeldes, corajosas, capazes de movimentar a hierarquia dos modelos masculinos, a qual luta para se manter imóvel. Nesse grupo, não há um padrão único, há, na verdade, um encontro, ampliando tipos, expressões e vivências. Tem um pouco de masculino e de não masculino, de feminino e de não feminino e outras possibilidades de ser, participar e expressar.

    Quero terminar este artigo lembrando que vou dar uma sequência para esse assunto que se desdobrará em outras publicações deste blog, pois neles irei abordar outras questões relacionadas a identidades gays, portanto, não vou concluir por aqui, aliás nem que eu quisesse esse assunto não se conclui.


Indicação de leitura

Narrativas pessoais: a masculinidade hétero nas vivências do homem gay

autor: Thiago Saveda Severino

O presente estudo buscou apreender a influência e o impacto da ideia de masculinidade hegemônica na vivência e identidade de homens gays. A pesquisa, qualitativa, contou como técnicas, com a coleta de relatos escritos de experiência pessoal; entrevista semiestruturada e utilização de imagens. Os participantes deste estudo foram 8 homens gays com idade entre 28 e 41 anos que se deslocaram de cidades do interior de estados brasileiros para a capital de São Paulo. No tocante aos resultados pode ser observado que a construção da identidade gay desses homens se dá a partir de um padrão hegemônico de masculinidade. Nesse processo, há uma constante negociação da visibilidade e invisibilidade de seus corpos, tendo como objetivo a construção de uma imagem de homem hétero. Verificou-se entre os entrevistados, vivências comuns de contextos marcados por ações masculinizantes, implícitas e explícitas, coordenadas por setores diversos da sociedade, dentre os quais, o ambiente escolar e a esfera doméstica. Do mesmo modo, a violência, sempre presente na memória, como forma de orientar e supervisionar as suas experiências de vida; o trânsito do corpo como uma passagem de reconhecimento de si e para a liberdade; o toque sendo descrito como um elemento importante no desenvolvimento do afeto e na descoberta do corpo de si e do outro. Por fim, o afeto entre homens é revelado como um elemento sob o controle da sociedade, sendo autorizado ou não, assim como o desejo, o qual, por um lado, é compreendido como via de prazer, por outro, é visto como algo proibido pela sociedade. É possível concluir do estudo que os homens entrevistados se apropriam de comportamentos que expressam aspectos marcantes da masculinidade hegemônica. No corpo é circunscrito os signos da masculinidade e pelo corpo eles demarcam e revelam sinais relacionados à masculinidade: virilidade, potência sexual, força, rigidez. Corpos musculosos, joviais e com pelos suportam os aspectos simbólicos intrínsecos e necessários para mantê-los passáveis como héteros, garantindo-lhes alguns dos privilégios dados aos homens heterossexuais que ocupam o alto topo da hierarquia no tocante ao modelo de masculinidade. Para tanto, há uma constante produção de uma masculinidade cuja baliza tem como medida a heterossexualidade, considerada por eles como um fato natural. Observa-se entre os participantes que as masculinidades que mais legitimam são, portanto, aquelas heterocentradas.
Link para acesso, clique aqui.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

Autoria, Sujeito, Identidade, Discursividade na Jornada do Escritor

    Eu iniciei no final do ano de 2023, meu novo projeto artístico-literário, intitulado O Escritor. Quero criar uma obra autoral única e, por isso, como reconheço minhas limitações para tanto, iniciei também uma jornada de aquisição de competências, habilidades e conhecimento para alcançar esse objetivo. Estou chamando-a de A Jornada do Escritor cujo propósito é, por meio de um processo de estudo e experimentação, abordando tanto a teoria quanto a prática artística, construir um outro trabalho paralelamente à produção da obra O Escritor.

    Esta semana compreendida entre os dias 8 e 12 de janeiro, me dediquei a estudar as bases do meu trabalho, retomando conhecimentos e buscando novos, além de pôr em prática o que ando vendo na teoria. O resultado disso até agora foi a produção de uma parte do prefácio da obra A Jornada do Escritor.

    Quero aqui compartilhar em resumo o que tenho produzido até o momento.

    Na seção sobre o Autor-Sujeito, o meu texto explora as ideias de Lacan e Foucault. Destaco que o sujeito não é uma entidade unitária e estável, mas é construído por relações sociais, linguagem e simbolismo. A linguagem desempenha um papel crucial na formação do sujeito, sendo moldado pela inserção no domínio simbólico.

    Foucault, por sua vez, rejeita a ideia de um sujeito unificado, enfatizando as relações de poder na formação da identidade. Ele introduz o conceito de "dispositivos", que incluem práticas discursivas, instituições e formas de conhecimento que regulam o sujeito.

A seguir, o meu texto destaca a interseção entre Lacan e Foucault na reflexão sobre a autoria. Argumento, com base nos autores, que a autoria é um ato político, enraizado nas relações de poder e nas estruturas simbólicas.

    Na seção "Entre o Real, o Imaginário e o Simbólico" exploro a complexidade da subjetividade, utilizando as contribuições de Lacan para descrever os registros do Real, Imaginário e Simbólico. Destaco que a capacidade de narrar e articular a experiência é fundamental para a formação do sujeito, mediada pela linguagem.

    O texto prossegue com a análise da relação entre autoria, saber e poder, utilizando as perspectivas de Foucault. Com a ajuda do autor, destaco a descentralização do sujeito e a importância das relações de poder na formação do sujeito como autor. Foucault me auxilia no exame das práticas discursivas em torno da sexualidade, constato que elas contribuem para a construção e regulamentação do sujeito.

    Na seção final, proponho entrelaçar as perspectivas de Lacan e Foucault para ampliar a compreensão do Autor-Sujeito. Argumento que a autoria não é apenas um ato de expressão criativa, mas também uma posição que o sujeito assume em relação a si mesmo, aos outros e à sociedade. Destaco que a autoria é um processo dinâmico de desconstrução e reconstrução, influenciado pelas experiências e pelas relações sociais.

    Eu apresento o reconhecimento de si, do autor e das instituições sociais como um aspecto crucial da autoria. Nesse sentido, o texto explora como o sujeito, ao se tornar autor, está envolvido em um processo complexo de reconhecimento que abrange a compreensão de si mesmo, a aceitação do papel de autor e a influência das instituições sociais na construção da narrativa pessoal.

    Termino discutindo autoria, subjetividade e discursividade como elementos interligados. Constato que o reconhecimento do eu, a aceitação da posição de autor e a consciência das influências sociais contribuem para a construção de uma discursividade pessoal. Concluo destacando a importância de compreender a interação desses elementos na formação da identidade individual.

É isso! Logo, trago mais atualizações sobre o meu trabalho.

Identidades em construção e a subversão da lógica binária

    Até aqui eu explorei o problema do lugar de fala e antecipei uma noção geral sobre o conceito de gênero, tópicos importantíssimos para compreender este trabalho. Agora a minha intenção é ampliar a concepção do que é identidade, nesse rumo, eu penso que a primeira coisa a se fazer, quando esse é o assunto, é problematizar o senso comum a respeito do tema em pauta para desconstruí-lo. Desse modo, aí sim, podemos encaminhar um debate responsável sobre a questão em abordagem nesta parte. O segundo passo é ir por um caminho mais complicado, no entanto, esclarecedor, compreender como a lógica binária se relacionada com a construção das identidades.

    A noção comum que circula sobre identidade é que ela é única, imutável, que é uma entidade colocada em nós em um determinado momento, o qual não sabemos qual é, que perdura para toda a nossa vida, que existe uma essência em nós.

    Aí está o problema: basta olharmos com atenção para a nossa história, assim, descobriremos que não há essência, descobriremos que mudamos muito nesses anos que se passaram, que estamos continuamente em construção. Somos construídos em relação ao outro e em relação ao mundo, logo, não há uma essência e enquanto houver história de vida, haverá identidades em construção.

    Para ilustrar, vamos fazer um exercício bastante simples. Pare um instante e relembre os teus 10 anos de idade. Se esforce para lembrar bem quem você foi. Fez isso?

    Com este exercício, perceba:

  1. Existe uma grande dificuldade de você se lembrar exatamente quem você foi, porque aquela criança já não existe mais;
  2. O que ficou marcado em você foram as lembranças fantasiosas sobre si mesmo;
  3. A saudade, a nostalgia mostram o quanto você já não é mais aquela criança.

    E isso de forma alguma deve te assustar. Isso só prova algo incrível da vida: a efemeridade do tempo e a metamorfose do ego (eu/self).

    Stuart Hall, uma autoridade nesse tema, diz que se sentimos que temos uma identidade unificada desde o nascimento até a morte, é, simplesmente, porque construímos uma história confortável sobre nós mesmos ou uma "autonarrativa" reconfortante. Para ele, a identidade totalmente reconhecível, completa, segura e consistente é uma ilusão.

    Hall diz ainda que as identidades (pós)modernas estão sendo “descentradas”, isto é, deslocadas ou fragmentadas.

    A partir dos seus estudos, ele mostra que, desde o final do século 20, ocorre uma modificação estrutural que está transformando a sociedade (pós)moderna e o resultado disso é a divisão do cenário cultural de classe, gênero, sexualidade, etnia, raça e nacionalidade, que no passado nos possibilitou uma posição menos variada como indivíduos na sociedade. Essas alterações também impactam nossas identidades pessoais, desestabilizando a nossa noção de nós mesmos como um sujeito completo. Essa perda de estabilidade de um "sentido de si", às vezes, é chamada de deslocamento ou descentração do sujeito.

    Hall ainda afirma que esse processo produz o sujeito (pós)moderno, o qual não tem uma identidade fixa, essencial ou permanente. A identidade se torna uma "celebração móvel": ela é constantemente formada e transformada em torno de como nos comportamos ou nos desafiamos no sistema cultural ao nosso redor. É definida historicamente e não biologicamente.

    Diante disso, chegamos à conclusão de que existem identidades contraditórias dentro de nós, movendo-se em direções diferentes, de modo que nossas identificações estão em deslocamento constante, pois, com o desenvolvimento de novas referências e outras representações culturais, nos deparamos com identidades possíveis e variadas e podemos, pelo menos temporariamente, nos identificar com cada uma delas.

    Outro aspecto importante a se refletir dentro desse assunto é a presença constante da lógica binária em nosso dia a dia. Preste atenção e perceba que somos, frequentemente, conduzidos a uma única possibilidade que é dupla: ou você é isto ou é aquilo.

    Funciona assim: quando nascemos alguém olha a nossa genitália (geralmente o médico) e determina: é homem ou mulher, determinando aí uma infinidade de outras características identitárias, todavia se esquece de levar em consideração que ainda não se construiu essa extensa história de vida que certamente mudará essa compreensão sobre aquele corpo que nasceu, porque o gênero e a sexualidade são partes da identidade e não toda ela.

    Por causa disso, somos forçados a aprender a ser homem e ser mulher dentro de um sistema sociocultural comumente binário, exemplo, mulheres usam saias, homens, não. Mulheres são emotivas, homens, jamais. Homens são fortes, mulheres, sensíveis. E nessa lógica, um não pode ser o outro, pois, masculino não se confunde com o feminino e vice-versa, no entanto, nos esquecemos que no espaço existente entre o ser homem e o ser mulher, há inúmeras outras formas de existir, podemos ser várias coisas ao mesmo tempo e deixar de ser. Vale ressaltar que se esse padrão binário é ensinado e aprendido, pode, então, ser desaprendido, debatido ou ressignificado de acordo com a singularidade de cada indivíduo, principalmente, quando esse padrão sustenta ou produz opressão, marginalização ou violências.

    Por fim, nós somos identidades em construção, enquanto houver história, seremos construídos em relação ao outro e ao mundo, dentro de um contexto social e cultural de regras, costumes, crenças, valores, ética, moral, concepções de vida tão distintas quanto a quantidade de gente no mundo atual e futuro, por isso se faz necessário subverter a lógica binária que aí está posta.


Indicação de filme sobre o tema:

A garota dinamarquesa

É um filme teuto-belgo-nipo-dano-britano-estadunidense de 2015, dos gêneros drama biográfico e ficção histórica, dirigido por Tom Hooper, com roteiro de Lucinda Coxon baseado no romance The Danish Girl, de David Ebershoff e inspirado na vida das pintoras dinamarquesas Lili Elbe e Gerda Wegener.

O filme é protagonizado pelo ator Eddie Redmayne, que interpreta a personagem Lili Elbe, a qual, na vida real, foi uma das primeiras pessoas transgênero a se submeter a uma cirurgia de redesignação sexual. Outra estrela do filme é a atriz Alicia Vikander como Gerda Wegener.

Fonte: Wikipedia.

Os vencedores do Oscar® Eddie RedMayne e Alicia Vikander estrelam essa marcante história de amor inspirada por fatos reais, dirigidos pelo também vencedor do Oscar® Tom Hooper. Quando Gerda (Vikander) pede ao seu marido Einar Wegener (RedMayne) que trabalhe como modelo, os seus sentimentos por muito tempo reprimidos emergem e ele assume sua personalidade feminina. Embarcando numa jornada para se tornar a mulher que ele tanto deseja ser, Lili Elbe que só é possível por conta do amor incondicional de Gerda. (Título Original - The Danish Girl) - 2015 Focus Features. All Rights Reserved

Fonte: play.google.com