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sexta-feira, 17 de maio de 2024

A homossexualidade não existe (parte 1)

A afirmação inicial de que "a homossexualidade não existe" pode ser vista como uma provocação, destinada a estimular a reflexão sobre a complexidade das identidades sexuais e a fluidez da sexualidade. De fato, o título poderia ser substituído por "A Heterossexualidade não existe", "A Bissexualidade não existe", ou qualquer outra orientação sexual, pois o cerne da questão é discutir como as categorias e rótulos sexuais afetam a forma como vemos e vivenciamos o mundo.

Desconstruindo hierarquias e sua rigidez: críticas às categorias da sexualidade

Os termos "homo", "hetero", "bi", "trans" são usados para diferenciar e categorizar a sexualidade em identidades sexuais, porém, em uma sociedade permeada por normas e preconceitos, essas diferenciações podem levar a hierarquias de valor. A heterossexualidade é frequentemente vista como a natural, como a norma, o padrão pelo qual todas as outras orientações sexuais são julgadas. Essa hierarquia implica que as pessoas heterossexuais têm mais valor do que as pessoas com outras orientações sexuais, todavia, essa hierarquia é arbitrária e injusta, pois, como é construída sobre equívocos conceituais (advindos principalmente da religião em forma de opressão, cerceamento, desvio, demonização), não há uma base objetiva para atribuir mais valor a uma orientação sexual do que a outra.

Uma das principais críticas a essas categorias é que elas tendem a fixar a sexualidade, tornando-a rígida e inflexível. A ideia de que alguém é permanentemente "homossexual" ou "heterossexual" impede o reconhecimento da fluidez da sexualidade. A sexualidade humana é inerentemente complexa e variável e as pessoas podem experimentar mudanças ao longo de suas vidas. A rigidez dessas categorias é inadequada, pois impõe limites à liberdade sexual e ao desenvolvimento pessoal.

Explorando a complexidade da sexualidade humana

O contato dos corpos, o uso das genitálias, o ato sexual e a penetração, o efeito do uso das partes sensíveis do corpo pode ocorrer biologicamente, contudo o prazer depende de como a pessoa interpreta o ato. Isso destaca a importância de se entender que o sexo não é um ato estritamente definido, mas sim uma experiência que varia de pessoa para pessoa. A sexualidade envolve mais do que a atividade física; também envolve emoções, desejo e conexões interpessoais.

Além disso, a ideia de que existem maneiras "certas" ou "erradas" de experimentar o prazer sexual é problemática. Cada indivíduo é único e o que traz prazer a uma pessoa pode não ser o mesmo para outra. Julgar ou estigmatizar as preferências e experiências sexuais dos outros é uma manifestação do mesmo regime de opressão que coloca hierarquias sobre as identidades sexuais.

Explorando a diversidade sexual: respeitando a fluidez e autenticidade

Uma abordagem mais inclusiva e respeitosa em relação à sexualidade envolve reconhecer a diversidade das experiências humanas e a fluidez das sexualidades. Em vez de tentar categorizar as pessoas em rótulos rígidos, devemos permitir que cada indivíduo explore e defina sua própria sexualidade de maneira que seja autêntica e satisfatória para eles.

Por fim, a afirmação de que "a homossexualidade não existe" serve como um ponto de partida para uma discussão mais ampla sobre as complexidades da sexualidade e a sua fluidez. As categorias sexuais podem ser úteis para a compreensão e o diálogo, porém também podem ser limitantes e prejudiciais quando usadas para impor normas e hierarquias. A verdadeira liberdade sexual está em reconhecer e respeitar a diversidade das experiências humanas, permitindo que cada indivíduo explore a sua sexualidade de forma autêntica e sem julgamentos.

Outros problemas a se discutir

Dentro desse assunto, há outras questões a se problematizar, como: a inadequação da expressão "orientação sexual" e a concepção da homossexualidade a partir de uma perspectiva androcêntrica, no entanto, isso fica para uma outra publicação.


Sugestão de leitura:

Narrativas pessoais: a masculinidade hétero nas vivências do homem gay

O presente estudo buscou apreender a influência e o impacto da ideia de masculinidade hegemônica na vivência e identidade de homens gays. A pesquisa, qualitativa, contou como técnicas, com a coleta de relatos escritos de experiência pessoal; entrevista semiestruturada e utilização de imagens. Os participantes deste estudo foram 8 homens gays com idade entre 28 e 41 anos que se deslocaram de cidades do interior de estados brasileiros para a capital de São Paulo. No tocante aos resultados pode ser observado que a construção da identidade gay desses homens se dá a partir de um padrão hegemônico de masculinidade. Nesse processo, há uma constante negociação da visibilidade e invisibilidade de seus corpos, tendo como objetivo a construção de uma imagem de homem hétero. Verificou-se entre os entrevistados, vivências comuns de contextos marcados por ações masculinizantes, implícitas e explícitas, coordenadas por setores diversos da sociedade, dentre os quais, o ambiente escolar e a esfera doméstica. Do mesmo modo, a violência, sempre presente na memória, como forma de orientar e supervisionar as suas experiências de vida; o trânsito do corpo como uma passagem de reconhecimento de si e para a liberdade; o toque sendo descrito como um elemento importante no desenvolvimento do afeto e na descoberta do corpo de si e do outro. Por fim, o afeto entre homens é revelado como um elemento sob o controle da sociedade, sendo autorizado ou não, assim como o desejo, o qual, por um lado, é compreendido como via de prazer, por outro, é visto como algo proibido pela sociedade. É possível concluir do estudo que os homens entrevistados se apropriam de comportamentos que expressam aspectos marcantes da masculinidade hegemônica. No corpo é circunscrito os signos da masculinidade e pelo corpo eles demarcam e revelam sinais relacionados à masculinidade: virilidade, potência sexual, força, rigidez. Corpos musculosos, joviais e com pelos suportam os aspectos simbólicos intrínsecos e necessários para mantê-los passáveis como héteros, garantindo-lhes alguns dos privilégios dados aos homens heterossexuais que ocupam o alto topo da hierarquia no tocante ao modelo de masculinidade. Para tanto, há uma constante produção de uma masculinidade cuja baliza tem como medida a heterossexualidade, considerada por eles como um fato natural. Observa-se entre os participantes que as masculinidades que mais legitimam são, portanto, aquelas heterocentradas.


Personal narratives: the hetero masculinity in the gay man's experiences

The present study sought to understand the influence and impact of the idea of hegemonic masculinity on the experience and identity of gay men. The research, qualitative, counted as techniques, with the collection of written reports of personal experience; semi-structured interview and use of images. The participants of this study were 8 gay men aged between 28 and 41 years old who moved from cities in the interior of Brazilian states to the capital of São Paulo. Regarding the results, it can be observed that the construction of the gay identity of these men takes place from a hegemonic pattern of masculinity. In this process, there is a constant negotiation of the visibility and invisibility of their bodies, with the objective of building an image of a straight man. It was found among the interviewees, common experiences of contexts marked by masculinizing actions, implicit and explicit, coordinated by different sectors of society, among which, the school environment and the domestic sphere. Likewise, violence, always present in memory, as a way of guiding and supervising their life experiences; the transit of the body as a passage of self-recognition and towards freedom; touch being described as an important element in the development of affection and in the discovery of the body of oneself and the other. Finally, affection between men is revealed as an element under the control of society, whether authorized or not, as well as desire, which, on the one hand, is understood as a way of pleasure, on the other, is seen as something prohibited. by society. It is possible to conclude from the study that the men interviewed adopt behaviors that express striking aspects of hegemonic masculinity. The signs of masculinity are circumscribed in the body and through the body they demarcate and reveal signs related to masculinity: virility, sexual potency, strength, rigidity. Muscular, youthful and hairy bodies support the intrinsic and necessary symbolic aspects to keep them passable as heterosexuals, guaranteeing them some of the privileges given to heterosexual men who occupy the top of the hierarchy regarding the model of masculinity. Therefore, there is a constant production of a masculinity whose goal is heterosexuality, considered by them as a natural fact. It is observed among the participants that the masculinities that most legitimize are, therefore, those that are heterocentric.

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quinta-feira, 25 de abril de 2024

Desestigmatizar o feminino: uma necessidade social urgente

Nos meandros da sociedade contemporânea, persiste um estigma que, lamentavelmente, muitas vezes é aceito tacitamente: a estigmatização do feminino. Este fenômeno insidioso, enraizado em preconceitos e ideias ultrapassadas, encontra expressão em diversas esferas da vida, uma das quais é a estigmatização do homem afeminado.

Os estereótipos de gênero e a marginalização do feminino na sociedade moderna

A ideia de que um homem possa expressar traços considerados "femininos" e, consequentemente, ser alvo de discriminação e marginalização é um reflexo direto do estigma associado ao feminino. Desde tenra idade, somos ensinados a valorizar certas características e comportamentos associados ao que é considerado "masculino", enquanto relegamos tudo o que é percebido como "feminino" a um papel secundário, ou pior, a algo digno de vergonha e repúdio.

Problematizando a masculinidade heterocentrada: impactos além dos indivíduos afeminados

A masculinidade heterocentrada, uma construção social que impõe uma visão restrita e prejudicial do que significa ser homem, é uma das principais impulsionadoras desse estigma. Sob essa ideologia, expressões de sensibilidade, empatia e outros traços associados ao feminino são vistas como sinais de fraqueza ou inferioridade. Assim, os homens que se desviam desse padrão são frequentemente alvo de zombaria, violência verbal e até mesmo física.

É essencial reconhecer que essa estigmatização não prejudica apenas os homens afeminados, mas também perpetua a desigualdade de gênero e prejudica toda a sociedade. Ao associar negativamente o feminino, limitamos o espectro de comportamentos e emoções considerados socialmente aceitáveis para todos, independentemente do gênero. Isso contribui para a manutenção de estruturas de poder desiguais e para a marginalização das mulheres e de qualquer pessoa que não se encaixe nas normas estritas de gênero.

Valorizando o feminino: um passo crucial para uma sociedade mais justa e inclusiva

Desestigmatizar o feminino não significa apenas aceitar e celebrar a diversidade de expressões de gênero, mas também reconhecer o valor intrínseco de características consideradas tradicionalmente femininas, como empatia, sensibilidade e cooperação. Esses traços são essenciais para a construção de uma sociedade mais justa, compassiva e equitativa.

Portanto, é necessário que comecemos a desafiar ativamente o estigma associado ao feminino em todas as suas formas. Isso requer uma mudança cultural profunda, que começa com a desconstrução das normas de gênero restritivas e a promoção da igualdade em todas as áreas da vida. Devemos educar e incentivar as gerações futuras a valorizar a diversidade de experiências e identidades de gênero e a rejeitar qualquer forma de discriminação baseada em estereótipos ultrapassados.

Construindo um mundo de igualdade e aceitação: celebrando a diversidade de gênero e promovendo uma sociedade inclusiva

Diante disso, vale destacar que desestigmatizar o feminino não apenas beneficia os indivíduos que são alvo direto dessa discriminação, como também promove uma sociedade mais inclusiva, empática e progressista para todos. É hora de reconhecer e celebrar a riqueza da diversidade humana, em todas as suas formas, e construir um mundo onde ninguém seja julgado ou limitado por sua expressão de gênero.

sábado, 13 de abril de 2024

O que é ser homem?

Ao longo da história, a definição e a percepção do que é ser homem variaram significativamente de acordo com as diferentes culturas, períodos e contextos sociais. Em muitas sociedades antigas, a masculinidade estava intimamente ligada à ideia de força física, coragem e habilidades de caça e guerra. Homens eram frequentemente vistos como provedores e protetores de suas famílias e comunidades, todavia, é importante reconhecer que essas noções de masculinidade não eram universais e podiam variar consideravelmente entre culturas.

Com o tempo, à medida que as sociedades evoluíram e se tornaram mais complexas, as ideias sobre o que significa ser homem também se transformaram. Por exemplo, durante o Renascimento na Europa, houve um aumento do valor atribuído à educação, à cultura e à expressão artística, que influenciaram as concepções de masculinidade. Homens eruditos, artistas e pensadores foram admirados e celebrados como exemplos de masculinidade.

Vale destacar que essas noções de masculinidade muitas vezes excluíam ou marginalizavam certos grupos, como as mulheres, pessoas não-binárias e aqueles que não se conformavam aos padrões dominantes de gênero. Além disso, as normas de masculinidade muitas vezes colocavam pressão sobre os homens para se conformarem a certos comportamentos e expectativas, o que poderia ser prejudicial tanto para os próprios homens quanto para aqueles ao seu redor.

Nos tempos modernos, estamos testemunhando um movimento em direção a uma compreensão mais inclusiva e fluida de gênero e masculinidade. Cada vez mais, as pessoas estão reconhecendo a diversidade de experiências e identidades de gênero, e estão questionando as normas tradicionais de masculinidade. Isso tem levado a uma maior aceitação da expressão de gênero não conformista e uma rejeição das expectativas rígidas associadas ao ser homem.

Sendo assim, quando consideramos a questão de "de onde vem o homem", devemos reconhecer que a identidade masculina é profundamente enraizada no contexto cultural e histórico, por isso, está sujeita a mudanças e evoluções ao longo do tempo. Ser homem não é uma condição estática ou universal, mas sim uma construção complexa e em constante transformação, forjada pelas influências culturais, sociais e individuais de cada época.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2024

Se passar por hétero

    Homens gays em algum momento ou constantemente tem que “se passar” por hétero. Aí você me pergunta: o que é “se passar” por hétero? É assim, as pessoas de modo geral têm uma expectativa de comportamento e/ou uma ideia comum do que é um homem hétero, então quando um homem gay corresponde a essa expectativa ou se parece com essa ideia comum de homem hétero, ele “se passa” por hétero. Isso é confuso, contraditório e para muitos não faz sentido, porém, talvez não seja tanto assim. Vamos falar sobre isso!

    No capítulo anterior, eu escrevi sobre os modelos de masculinidades, lá eu falei que há um modelo mais comum de masculinidade, o qual se estabeleceu como o padrão-normativo, é uma referência explícita e recomendada para todos os homens. A maior parte dos homens tem características comuns entre eles: pelos pelo corpo, corpos fortes, trejeitos robustos, rejeitam comportamentos que expressam sensibilidade, delicadeza, fragilidade, buscam mostrar frequentemente uma personalidade ativa, cheia de vigor e potência sexual (predação sexual). Esse modelo masculino é atribuído ao homem hétero, por isso qualquer homem que tenha essas características é visto como homem hétero, mesmo ele sendo um homem gay. Certamente, muitos de nós, homens gays, já ouvimos aquela tenebrosa frase: “mas, você não parece gay”. As pessoas dizem isso justamente, porque tem em mente esse modelo de masculinidade heterocentrado.

    Vale dizer que não existe uma masculinidade natural para homens héteros e uma para homens gays, como eu disse na anteriormente, existem modelos plurais. Logo, pode haver homens héteros delicados, sensíveis, com estruturas corporais diversas, com pelos aparados e sem barba e outras características que geralmente não são atribuídas aos homens héteros. Ele vai continuar sendo hétero. A mesma coisa acontece com homens gays. Não é porque o homem expressa sensibilidade, delicadeza, fragilidade, gosta de elementos do universo atribuído ao feminino que ele é gay.

    Diante disso, vamos retomar o assunto, muitos homens gays em certas ocasiões assumem rigorosamente as características de masculinidade de um modelo heterocentrado para não sofrer com chacotas, exclusão de grupos, agressão física, enfim, variados tipos de violências. Muitos homens gays “se passam” por hétero para poder serem aceitos por suas famílias, para poder fazer parte de um grupo de amigos, para se relacionar com os colegas de trabalho, para obter relações cordiais e afetuosas. Muitos homens gays “se passam” por hétero para ser desejados, pois o modelo heterocentrado é o mais desejado.

    Exemplos: na escola, às vezes, mesmo não querendo, meninos praticam esportes como o futebol para não sofrerem represálias por parte dos outros meninos. Na família, às vezes, meninos e homens não fazem o serviço doméstico para não serem repreendidos. Na balada, às vezes, homens mais parecidos com o modelo padrão heterocentrado tem preferência no flerte.

    Frequentemente muitos homens gays invisibilizam a sua identidade gay por causa das constantes violências a que estão expostos. “Se passar” por hétero é se proteger, se preservar e obter privilégios.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

Ser homem gay

    Repare uma coisa. Cada pessoa que você conhece tem características visíveis e não visíveis, as quais te faz reconhecê-la como sendo uma pessoa única, no entanto, você consegue reconhecer semelhanças dessa pessoa com outras pessoas e seus lugares. Veja bem, estou falando de identidade, estou falando de ser, cujo significado de acordo com o Dicionário Online de Português tem a ver com particularidade, capacidade, condição ou determinada circunstância. A visualidade da nossa identidade é nossa imagem, resultado de nossas relações com o mundo, com os outros e com a gente mesmo e aquilo que não é visível passa pelo mesmo processo. Isso acontece com todo mundo. Nossas identidades são forjadas no dia a dia de nossas relações desde quando nascemos. Bom, vou focar nas identidades gays, por isso, para começo de assunto, vamos pensar um pouco acerca da questão: o que é ser gay?

    Não vou usar o termo homossexual, porque a homossexualidade é uma categoria criada para diferenciar e controlar homens e mulheres fora de um padrão imposto de sexualidade. Mais para frente prometo discutir esse tópico em uma publicação específica sobre o tema. Eu vou usar o termo gay, justamente, porque acho que ele representa maior amplitude para se imaginar a figura de homens fora do padrão heterocentrado.

    Tendo isso em mente, vamos compreender o que significa de modo geral o termo, segundo explica o site Etimologia, a palavra gay é identificada “como um empréstimo do inglês, generalizando-se para indicar o indivíduo homossexual a partir de seu comportamento jovial e leve, cuja referência se distingue no francês gai, entendido como aquele que expressa um caráter alegre, associado ao alto alemão gāhi, indicando um estado de surpresa repentina, refletindo-se no espanhol antigo como gaio, no catalão gai, no italiano gaio e no espanhol gay, emergindo em todos os casos sobre uma possível raiz no occitano a partir das formas gai, jai, por alegre . A relação do termo gay com a homossexualidade remonta ao início do século XX nos Estados Unidos, lembrando que a primeira manifestação do Orgulho Gay ocorreu em junho de 1970, em Nova York”. Além disso, modernamente, atribuímos o termo gay mais aos homens.

    Partindo disso, posso dizer que há um leque de diferentes tonalidades para ser um homem gay, porque me parece que a centralidade da identidade gay é ser alegre, é se distinguir do comportamento comum aos outros homens, é fugir de uma atitude socialmente controlada. É importante dizer que em tempos anteriores, bem antes do uso do termo gay, os homens gays eram chamados de outros nomes, inclusive, de homens alegres. Enfim, me parece que a alegria na verdade está relacionada ao jeito de homens gays se comportarem, falarem, encararem a vida que se mostrava diferente da maneira de outros homens.

    Além desse sentido, existem outros atribuídos ao termo que foram se estabelecendo ao longo dos anos. Sempre me incomodei com esta coisa de pessoas, amigos, familiares falarem: “Ah! Mas você não é homem. Você é gay.” Na minha cabeça, eu pensava: “Espera! Eu sou homem que gosta de homem”, ser gay é ser homem, uma coisa não exclui a outra. Aí eu pergunto: quais são os sentidos sociais presentes nessa declaração? Com o tempo eu fui tendo contato com leituras, filmes, pessoas que me ajudaram a elaborar isso na minha cabeça. É uma declaração frequente na boca de homens e mulheres do nosso convívio diário, então é um discurso já incorporado, se tornou uma “verdade”.

    Quando alguém diz “você não é homem”, este alguém está negando a humanidade e todos os direitos que um homem gay tem sobre essa humanidade comum entre os homens, pactuada por meio da masculinidade e, quando diz “você é gay”, está coisificando a pessoa, reforçando o caráter inumano e colocando-a numa posição de objeto. E qual é o tratamento que se dá aos objetos? Objeto tem valor utilitário. Você usa para determinado fim, mas não precisando mais, você o desconsidera.

    Dito isso, vamos aos modelos de masculinidades gays. Vou começar com o modelo de masculinidade mais conhecido, mais usual, mais privilegiado, mais valorizado, mais desejado, ou seja, o hegemônico. (significado de hegemônico). Não sou eu que estou conferindo toda essas honrarias a este modelo, foi a sociedade que fez isso com o passar do tempo. O modelo hegemônico se estabeleceu como o padrão-normativo, é uma referência explícita e recomendada para todos os homens. Observe que a maioria dos homens tem pelos pelo corpo, valorizam o corpo forte, trejeitos robustos, rejeitam comportamentos que expressam sensibilidade, delicadeza, fragilidade, buscam mostrar frequentemente uma personalidade ativa, cheia de vigor e potência sexual (predação sexual).

    Os homens gays mais próximos dessas características são considerados mais masculinos e, quanto mais um homem gay se distância disso, mais ele vai perdendo valor em masculinidade e vai sendo desviado para o feminino. Logo, quanto mais parecido com o padrão, mais homem, quanto mais distante do padrão, menos homem.

    Veja bem, não estou falando de certo e errado, estou falando de construções socioculturais que deram origem a uma referência “natural” para os homens (na verdade, se naturalizou). Só que não existe um modelo natural, não existe um modelo de masculinidade feito pela natureza, não existe nenhum órgão do corpo humano que produza a masculinidade, nenhuma substância do organismo é capaz de fazer isso. A masculinidade não se centra no pênis e o pênis sozinho não determina a condição de ser homem, por essa razão encontramos por aí formatos plurais de masculinidades. Exemplo: homens héteros com pênis amputado por motivo de doença. Ou homens trans.

    É importante destacar as identidades gays nas fronteiras. Uma fronteira é uma linha que divide territórios e até mesmo zonas morais. É conhecida, principalmente, por ser um limite político e separar grupos de pessoas, no entanto, geralmente, essas pessoas podem se movimentar livremente dentro das fronteiras de seus próprios territórios ou zonas, porém, para entrar em outro grupo precisa de uma certa “permissão” ou um certo conhecimento do mesmo e fazer uso disso para transitar. Lembrando que até mesmo grupos de pessoas têm sistemas políticos semelhantes ou acordos pré-negociados, suas fronteiras podem ser abertas e não defendidas. Tomando isso de forma literal e também metafórica, podemos destacar as identidades que se movimentam constantemente nas fronteiras. De modo geral, são móveis, flexíveis, subversivas, rebeldes, corajosas, capazes de movimentar a hierarquia dos modelos masculinos, a qual luta para se manter imóvel. Nesse grupo, não há um padrão único, há, na verdade, um encontro, ampliando tipos, expressões e vivências. Tem um pouco de masculino e de não masculino, de feminino e de não feminino e outras possibilidades de ser, participar e expressar.

    Quero terminar este artigo lembrando que vou dar uma sequência para esse assunto que se desdobrará em outras publicações deste blog, pois neles irei abordar outras questões relacionadas a identidades gays, portanto, não vou concluir por aqui, aliás nem que eu quisesse esse assunto não se conclui.


Indicação de leitura

Narrativas pessoais: a masculinidade hétero nas vivências do homem gay

autor: Thiago Saveda Severino

O presente estudo buscou apreender a influência e o impacto da ideia de masculinidade hegemônica na vivência e identidade de homens gays. A pesquisa, qualitativa, contou como técnicas, com a coleta de relatos escritos de experiência pessoal; entrevista semiestruturada e utilização de imagens. Os participantes deste estudo foram 8 homens gays com idade entre 28 e 41 anos que se deslocaram de cidades do interior de estados brasileiros para a capital de São Paulo. No tocante aos resultados pode ser observado que a construção da identidade gay desses homens se dá a partir de um padrão hegemônico de masculinidade. Nesse processo, há uma constante negociação da visibilidade e invisibilidade de seus corpos, tendo como objetivo a construção de uma imagem de homem hétero. Verificou-se entre os entrevistados, vivências comuns de contextos marcados por ações masculinizantes, implícitas e explícitas, coordenadas por setores diversos da sociedade, dentre os quais, o ambiente escolar e a esfera doméstica. Do mesmo modo, a violência, sempre presente na memória, como forma de orientar e supervisionar as suas experiências de vida; o trânsito do corpo como uma passagem de reconhecimento de si e para a liberdade; o toque sendo descrito como um elemento importante no desenvolvimento do afeto e na descoberta do corpo de si e do outro. Por fim, o afeto entre homens é revelado como um elemento sob o controle da sociedade, sendo autorizado ou não, assim como o desejo, o qual, por um lado, é compreendido como via de prazer, por outro, é visto como algo proibido pela sociedade. É possível concluir do estudo que os homens entrevistados se apropriam de comportamentos que expressam aspectos marcantes da masculinidade hegemônica. No corpo é circunscrito os signos da masculinidade e pelo corpo eles demarcam e revelam sinais relacionados à masculinidade: virilidade, potência sexual, força, rigidez. Corpos musculosos, joviais e com pelos suportam os aspectos simbólicos intrínsecos e necessários para mantê-los passáveis como héteros, garantindo-lhes alguns dos privilégios dados aos homens heterossexuais que ocupam o alto topo da hierarquia no tocante ao modelo de masculinidade. Para tanto, há uma constante produção de uma masculinidade cuja baliza tem como medida a heterossexualidade, considerada por eles como um fato natural. Observa-se entre os participantes que as masculinidades que mais legitimam são, portanto, aquelas heterocentradas.
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quarta-feira, 10 de janeiro de 2024

Quem tem direito a falar sobre identidade de gênero?

    Muitos assuntos importantes geram polêmicas quando trazidos para o debate público. Eu acho isso muito bom, pois, é nesse momento que as pessoas tomam parte da discussão, construindo, assim, um entendimento comum. É um excelente exercício de cidadania, além de valorizar o diálogo como princípio democrático.

    A pauta a respeito de identidade de gênero é frequente hoje em dia em muitas rodas de conversas entre amigos, nas salas de aulas, na mídia de massa, nas redes sociais e, claro, gerando polêmica, concordâncias e discordâncias. Esse é o movimento esperado do debate público. É comum observar também grupos de pessoas reivindicando, em seus discursos, a propriedade única e exclusiva dessa pauta, alegando inúmeras justificativas, porém, vou destacar aqui que a pauta a respeito de identidade de gênero pertence a todas as pessoas ou instituições, porque, cada pessoa, ao longo de sua vida, vai construindo a sua identidade, não só a de gênero, como qualquer outra identidade, além disso, essas pessoas se agrupam e se encontram em organizações com diferentes papeis sociais.
    Enfim, a identidade de gênero diz respeito a uma das faces de nossas muitas identidades. Ela é construída ao longo da nossa vida e assume formas variadas conforme nosso contexto social e cultural, portanto qualquer pessoa pode e deve tomar parte das discussões em torno das identidades de gênero.

Antes de avançar, vamos falar um pouquinho sobre gênero?

    De antemão, quero pedir desculpas se meu discurso ficar meio academizado. Para me ajudar a abordar o tema gênero, vou recorrer, principalmente, a obra “Gênero – uma perspectiva global – compreendendo o gênero – da esfera pessoal à política – no mundo contemporâneo” das pesquisadoras Raewyn Connell e Rebecca Pearse. Na obra, elas afirmam que existe um empenho social para orientar o comportamento das pessoas, havendo ideias a respeito de comportamentos apropriados a cada gênero circulando reiteradamente pelas posturas de inúmeros tipos de indivíduos.

    As autoras afirmam que “ser homem ou uma mulher, então, não é um estado predeterminado. É um tornar-se; é uma condição ativamente em construção. [...] esse processo é frequentemente debatido como o desenvolvimento da ‘identidade de gênero’”. Apesar de afirmarem que o termo “identidade de gênero” é problemático para elas, a adoção do mesmo serve para facilitar a reflexão sobre essa categoria. Para as autoras, nossas ideias a respeito desse pertencimento e seu significado, que tipo de pessoa somos, como resultado de sermos mulher ou homem, está inserido na identidade. Elas ressalvam que essas ideias não são propostas para nós, quando somos ainda bebês, como um conjunto fechado de itens para o nosso desenvolvimento no início da vida. Não se sabe, assim, em que momento rigorosamente se desenvolvem e, ao longo da trajetória de nossa formação essas ideias vão sendo desenhadas.

    De acordo com as autoras, em alguns momentos, a construção da “identidade de gênero” tem como produto um padrão intermediário, uma mistura, um contraste nítido, para os quais denominamos estranho, queer, afeminado, afetado, transgênero: homens femininos e mulheres masculinas; mulheres atraídas afetivo-amorosamente por outras mulheres e homens, por outros homens.

    Ainda, conforme as autoras, o prazer, o reconhecimento e a identidade tem origem nas relações de gênero e, ao mesmo tempo, tem também origem nas injustiças e hostilidade. Isso quer dizer que o gênero é uma categoria intimamente política que se constitui em um espaço de disputa. A desigualdade e a opressão, no campo do gênero, têm levado movimentos sociais a lutar por reformas em todos os segmentos da sociedade: educação, mídia de massa, mercado de trabalho, gestão pública, legislação, direitos reprodutivos, direitos humanos etc.

    Outra questão importante a se considerar aqui é o destaque que se dá a oposição do gênero existente em grande parte dos debates na sociedade que partem de uma divisão biológica entre homens e mulheres, definindo gênero como desconcertos sociais ou psicológicos que coincidem a essa divisão, sendo compostas sobre ela ou causadas por ela.

    Conforme as autoras, “em seu uso mais comum, então, o termo ‘gênero’ significa a diferença cultural entre mulheres e homens, baseada na divisão entre fêmeas e machos. A dicotomia e a diferença são a substância dessa ideia”. Para superar esses impasses, a solução é enfocar as relações e não as diferenças, pois, acima de tudo, gênero é uma questão das relações sociais que incorporam indivíduos e grupos.

    Connell e Pearse afirmam que o gênero deve ser entendido como uma estrutura social, uma vez que a revisão de padrões profusamente disseminado entre relações sociais é chamada pela teoria social de “estrutura”. Não é uma expressão da área biológica, tampouco uma dicotomia inalterável na vida ou da índole humana. É um modelo em nossos ajustes socais a partir do qual as práticas do dia a dia são ordenadas.

    De modo informal, elas dizem que gênero é relativo à maneira com que as sociedades humanas encaram os corpos humanos e o seu encadeamento e como enfrentam a repercussão desse “encarar” para nossas vidas pessoais e nosso destino coletivo.

Preciso de ter lugar de fala para me posicionar sobre algo?

    A resposta é óbvia, não, mas, calma lá, precisamos refletir um pouco mais sobre o que é a atitude de falar sobre pautas socialmente relevantes. Para começar, quero trazer aqui uma frase de Djamila Ribeiro, filósofa, feminista negra e escritora: “o lugar social não determina uma consciência discursiva sobre esse lugar. Porém, o lugar que ocupamos socialmente nos faz ter experiências distintas e outras perspectivas”, esta frase faz parte do seu livro O que é lugar de fala? lançado em 2017, ou seja, não é porque uma pessoa é gay que ela sabe tudo sobre ser gay, porém, certamente, suas experiências trazem outros pontos de vista sobre o assunto.

    Muitas vezes não enxergamos a realidade que há por trás de certas situações, por exemplo, quando falamos sobre gênero, às vezes nos escapa a compreensão do todo e do particular. Já ouvi inúmeras vezes que eu, Thiago Saveda, falo como um homem gay do alto do meu privilégio de estar dentro do padrão imposto para homens - não afeminado, branco, cis. Isso seria um desqualificador no sentido que eu não teria propriedade para abordar pautas sobre gênero já que não sou alvo, preferencial, da opressão dos gêneros. É um grande equívoco pensar dessa maneira. Até porque as violências acontecem de todas as formas, em todos os tempos, sobre todos os corpos, além do mais, cada um sabe o tamanho da sua dor e como ela dói.

    Vou eu falar da minha vida de novo. Quando eu era criança, eu era olhado pelos outros como o “esquisito”, até minha mãe falava isto. Eu não entendia muito bem, no entanto já sabia que existia aí uma diferenciação importante. Até que de esquisito comecei a escutar “bichinha”, “viadinho”. E foi evoluindo à medida que eu ia crescendo. Enfim, fui acusado de ser gay a minha adolescência inteira, sem mesmo saber o que isso significava, mas, uma coisa eu sabia, que isso estava relacionado aos xingamentos e à exclusão diária na escola, na rua onde morava e até dentro de casa, meu irmão era o meu principal agressor. Vez ou outra a agressão também era física. A minha dor maior era, com certeza, não ter amigos, coisa que sempre achei incrível. Eu sempre achei a amizade uma coisa muito linda!

    Eu não sabia, porém um dia uma amiga de infância – a única que eu tinha de fato – me olhou e, sinceramente, me disse, “você não percebe que você parece uma menina, seu jeito de andar, falar, de se comportar é de uma menina”. Aí fui entender o grande problema da minha vida: para todos os outros, eu parecia com o feminino.

    Bom, retomando, todas essas violências se tornaram marcas que carreguei sangrando por muito tempo e que hoje ainda carrego, porém cicatrizadas, de vez em quando, alguém cutuca e sangra. O que eu quero dizer com essa parte da história da minha vida? Quero dizer para as pessoas que me olham, me julgam e me querem tirar o direito de falar sobre gênero que vocês não vão me tirar esse direito nem que esperneiem, gritem. Tenho direito sobre a pauta como todas as pessoas que, indelevelmente, constroem, ao longo da sua vida, a sua identidade de gênero. Minhas poesias, minhas narrativas, meus artigos, meus trabalhos artísticos e acadêmicos são e serão sobre gênero e ninguém vai mudar isso.

    Bem, para encerrar, quero destacar um coisa importante, gênero faz parte de uma arena social de disputa, logo, temos que constantemente, nos confrontos discursivos, negociar a pauta indiferentemente se quem fala é branco, preto, pardo, homem, mulher, LGTBQIA+ ou não, colocando para todas, todes e todos o nosso ponto de vista elaborado em cima de nossas vivências, nossos estudos, leituras, de forma honesta e empática.


Indicação de livro sobre o tema:

Gênero em Termos Reais

Raewyn Connell (Autora), Marília Moschkovich (Tradutora)

Gênero em termos reais apresenta novos conceitos e uma nova pesquisa sobre as questões de gênero no cotidiano, na política e numa escala mundial. O livro começa com questões sobre as desigualdades globais: a ideia de colonialidade de gênero e a questão da deficiência do ponto de vista do Sul Global. Em seguida, descreve como tentativas de reforma de gênero por meio do Estado foram bem-sucedidas, contudo também sofreram resistência. Gênero em termos reais, então, se volta para questões sobre a masculinidade e sobre os homens, assim como leva em consideração as políticas da masculinidade e a reforma de gênero Internacionalmente, e discute a importância das perspectivas do Sul Global. Esta obra apresenta um estudo de caso sobre empresários no poderoso setor financeiro da economia, e aborda o caminho pelo qual a masculinidade se estrutura, enquanto os garotos estão em processo de crescimento. Finalmente, Gênero em termos reais leva em consideração as vidas e as colocações das mulheres transexuais. A história de uma vida, embasada em uma fantástica entrevista, é relatada com detalhes. As dificuldades das mulheres transexuais com relação à psiquiatria são analisadas; deste ponto, o livro retorna para a política igualmente conturbada das relações entre feminismo e mulheres transexuais.
Fonte: Amazon.com.br